Nota de repúdio à homenagem feita a Natale Coral, assassino de indígenas (que “trazia a orelha dos índios na salmoura, só pro riso”)

03/02/2021 10:31

 

 

A equipe de coordenação do curso Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica da UFSC recebeu com indignação a notícia que na noite de 28 de dezembro de 2020, Nova Veneza, cidade sul catarinense, inaugurou uma praça em homenagem a seu fundador, Natale Coral.

Nascido na Itália em 1859 e falecido no Brasil em 1911, Natale Coral é figura reconhecida em Nova Veneza, por sua fundamental contribuição à formação da colônia.
De acordo com o Portal Veneza (portalveneza.com.br) a obra será completada com um memorial, duas rosas dos ventos e “Na parte superior, na posição vertical uma baliza topográfica em forma de flecha, representará o povo indígena que vivia nestas terras.”
Em um momento histórico no qual  pelo mundo todo vemos a remoção e o questionamento acerca de monumentos em homenagem a  ditos “heróis”, responsáveis por atos genocidas do passado, ao receber a notícia desta homenagem nos perguntamos: Por que? Para que? A homenagem a Natale Coral em praça pública nos parece um negacionismo histórico dos crimes cometidos pelo fundador, e nos provoca novamente o questionamento sobre o lugar dos ditos “heróis” na nossa sociedade atual. A referência genérica a um povo indígena colocado no passado é mais um indício da continuidade da disseminação de visões racistas. A flecha equivale a uma enevoada lembrança do passado da região? Indígenas? Qual povo indígena?

Trata-se daqueles que os imigrantes e seus descendentes denominaram pejorativamente como bugres. Trata-se, em realidade, dos Laklãnõ-Xokleng, povo caçador, pescador, coletor, que à época vivia em grupos num imenso território de ocupação abrangendo desde o Rio Grande do Sul ao Paraná. Sim, eram ocupantes que antecederam os imigrantes desbravadores do sul catarinense e que atualmente vivem no Alto Vale do Itajaí e norte do Estado, nas Terras Indígenas Laklãnõ e Rio dos Pardos. São um povo com história de longa duração.

E que associação há entre Natale Coral e indígenas que o município quer que sejam lembrados na praça em sua homenagem?

Relatos e registros enunciam que o homenageado era um dos “bugreiros”, caçadores de índios, figuras que protagonizaram horror e morte nos acampamentos Xokleng, entre fins do século XIX e início do século XX. Essa conduta bárbara não condiz com civilidade, com humanismo. Não condiz com homenagem póstuma. Praças, estátuas, bustos são formas de solidificar símbolos e assim dar continuidade a memórias, fortalecendo visões e narrativas históricas. Os fatos históricos não mudam, mas nós podemos mudar quem escolhemos como heróis para o nosso presente e para o nosso futuro.

Escreveu o professor historiador e antropólogo Silvio Coelho dos Santos, da UFSC, referência na Etnologia Indígena brasileira, sobretudo a partir de suas pesquisas junto aos Xokleng a partir da década de 1960, falecido em 2008: “No sul do Estado, Natal Coral, Maneco Ângelo e um tal Veríssimo, entre outros, tornaram-se famosos como líderes das ‘batidas’ e pela violência com que assaltavam os acampamentos dos índios” (SANTOS, 2007, p. 75). Relatou Ireno Pinheiro, famigerado “bugreiro” que atuou em outras regiões de SC, como Santa Rosa de Lima: “Besteira foi o que fez o Natal Coral. Quando voltava de uma batida, trazia a orelha dos índios na salmoura, só pro riso. Mas depois os colonos só queriam pagar com a prova das orelhas, e ele se aborreceu, parou até que os índios já estavam ficando cada vez mais raros” (SANTOS, 2007, p. 118).

Do livro do Padre João Leonir Dall’Alba, intitulado Histórias do Grande Araranguá, advém informações de moradores de Nova Veneza por ele entrevistados nas décadas de 1970 e 1980. Seguem memórias de dois deles – José Gava e Marino Gava. Segundo José Gava, 85 anos, entrevistado em 1978: “Dizem que o local onde encontraram os bugres foi lá perto de Palermo. Trouxeram um saquinho de orelhas. Talvez é demais, mas… Também naquela vez trouxeram dois filhotes. Prático caçador e chefe de turma era o Natal Coral. Esse foi flechado nas costas, mas a flecha só atingiu o saco de roupa que ia carregando, uma mala do tempo antigo.” (DALL’ALBA, 1997, p.383). De acordo com Marino Gava, 73 anos, entrevistado em agosto de 1986: “De caçador de índios só sei do Coral.  Só numa vez teria matado cem índios, trazendo duzentas orelhas para o diretor da Empresa de Nova Veneza. Como tinham combinado 2 mil réis por orelha a Empresa Nova Veneza deveria dar-lhe a fortuna de 400 mil réis. Para não pagar foi ameaçando: ‘Fiquem quietos. Isto é proibido. Se o governo souber vocês vão todos para a cadeia.’” (DALL’ALBA, 1997, p. 389).

Há ainda outros nomes de bugreiros, como Zé Domingo e Martinho Marcelino de Jesus (conhecido como Martin Bugreiro), este último lembrado e temido no Vale do Itajaí. Seus próprios relatos são aterrorizantes, inconcebíveis, inadmissíveis, a expressar verdadeiro genocídio.

Temos, portanto, uma nova praça em Nova Veneza que comemora um “bugreiro”. São estes símbolos, estas memórias que os cidadãos e turistas que chegam em Nova Veneza querem carregar para o seu futuro? Visões de genocídio, visões racistas? Temos um povo indígena que tenazmente sobrevive, lembrando o que os antepassados relataram sobre os bugreiros. E temos, a rigor, um novo tempo a solicitar reconhecimento da história e atiçamento da memória. A requerer indignação, revolta e austeridade frente aos fatos, à atrocidade. Qual patrimônio histórico queremos referenciar para o nosso futuro?

É tudo e nada. Tudo a aprender e se posicionar. Nada a se omitir e negligenciar.

 

 

Equipe de coordenação do curso Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica da Universidade Federal de Santa Catarina.

Fevereiro de 2021.

 

 

Referências bibliográficas

DALL’ALBA, João Leonir. Histórias do Grande Araranguá. Araranguá (SC): Gráfica Orion Editora, 1997.

SANTOS, S. C. dos. Ensaios oportunos. Florianópolis: Academia Catarinense de Letras, 2007.

 

 

 

 

Filme “Guarani, Povo da Mata e da Universidade”

01/10/2020 11:29

Assista a sessão do filme “Guarani, Povo da Mata e da Universidade” com direção e roteiro de Marcia Paraiso. Em seguida, participe do debate ao vivo com Marcia Paraiso, Sandra Benites (Ara Rete) – Guarani Nhandeva – originária da Aldeia Porto Lindo (MS), , formada na primeira turma de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, Mestre em Antropologia Social pela UFRJ, Doutoranda em Antropologia Social,  e Curadora Adjunta do MASP,  Maria Dorothea Post Darella e Evelyn Schuler Zea, da Equipe de Coordenação do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica.